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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Sobre a mítica distância, a Maratona!

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Quase toda a gente que corre (e que não corre) já ouviu falar da maratona. São «os tais quarenta e tal quilómetros, não é?», perguntam alguns incautos. Quase certo... é corridita para 42.195 metros (quarenta e dois mil, cento e noventa e cinco metros) e é sinónimo de jogos olímpicos da era antiga, Carlos Lopes e Rosa Mota, excursões de quenianos e a prova que fecha os Jogos Olímpicos Modernos.

E querem saber uma boa? É uma grande invenção e nada tem a ver com as olimpíadas da Grécia Antiga. A distância manhosa que nem é 42.200 nem 43, nem 40, nem o caneco, é uma das provas provadas do «quem quer, quer, quem não quer manda», se me permitem o trocadilho e o provérbio português muito velho.

Em 1896, um cidadão francês de seu nome Pierre de Frédy, Barão de Coubertin, andava apostado na recuperação dos antigos ideiais do espírito olímpico da Grécia Clássica. Nesse ano, em Atenas, organizou os primeiros Jogos da Era Moderna. E para celebrar o espírito helénico da trégua pacífica verificada na altura dos jogos, colocou na agenda uma corrida que recuperava um dos grandes mitos da história clássica: a Batalha de Maratona. Nada mal pensado, pois querendo-se celebrar a paz, evoca-se uma guerra...

A coisa conta-se em duas penadas: um correio estafeta, corredor profissional, lá pelos idos de 490 antes de Cristo, foi incumbido pelos generais atenienses de avisar os principais de Esparta que os Persas haviam desembarcado na costa de Maratona, ali às portas de Atenas (às portas, é como quem diz, a 40 quilómetros - ou 25 milhas) e ameaçavam a cidade. Pediam, por intermédio do estafeta, auxílio contra os exércitos de Xerxes.

Ora, de Atenas a Esparta são SÓ 245 km e o moço lá cruzou a distância a pedir reforços. Em dois dias. Chamava-se Pheidippides e consta que terá morrido esgotado. Quando o Barão de Coubertin pensou em introduzir uma prova de referência, recuperou a mítica corrida de Pheidippides, porque ficou impressionado pelo feito do ateniense, romanceado pela literatura do século. 

Nesses livros, ia-se contando que o homem foi da praia a Atenas avisar os seus habitantes que a batalha estava ganha. Trocando (para dizer no mínimo) um bocadinho as voltas à coisa, Frédy chamou Maratona à corrida de 25 milhas (40km), a tal distância entre a dita praia e Atenas. Primeira conclusão: o nome e a distância são uma invenção de 1896! Para aqueles que pensam a fundo estas questão das distâncias, é preciso notar que a ÚNICA corrida das olímpiadas antigas era o stadium, com a distância de 180 metros; mais se informa que os 246 quilómetros que ligam Atenas a Esparta servem nos dias de hoje de palco a uma popular ultramaratona chamada Spartathlon. Se coisa nasceu torta, haveria de empenar ainda mais.

Em 1908, os Jogos Olímpicos realizaram-se em Londres. Como se uma corrida de 40 km não fosse já suficiente, a Casa Real Britânica solicitou à organização dos JO que os atletas saíssem do Palácio de Windsor - para que uma das princesas que se encontrava doente pudesse ver a partida - seguissem pelas ruas da cidade até à porta do estádio olímpico, onde dariam uma volta triunfal e completa à pista, para cortar a meta diante do camarote real. O capricho haveria de se cifrar no número redondo de 26 milhas e 385 jardas, isto é, 42.195m. A partir de 1921 a entidade que regula o atletismo adoptou aquela marca como a oficial e eis a razão da maratona ter aquela medida tão perfeita..

Segunda conclusão: rei é rei e é quem manda!

Roberto Laranjeiro
     ( Arqueólogo)

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