Lavaredo


sexta-feira, 3 de julho de 2015

THE NORTH FACE®
LAVAREDO ULTRA TRAIL

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Após o afastamento no ano passado do Tor des Geants devido a uma rotura muscular, decidi que iria lutar com toda a minha força e perseverança para estar presente este ano.

Mesmo antes de ter qualquer feedback da organização do TdG, decidi que iria começar a preparação no dia 2 de Janeiro 2015.

No último dia de Novembro do ano passado, dia do Gerês Marathon, numa conversa com o meu querido companheiro e amigo Carlos Sá, entre outras coisas, obviamente que o TdG teria que vir à baila. Foi aí que ele me “obrigou” a fazer LUT, como parte da preparação para o TdG. A inscrição foi feita e aceite, a taxa paga. Tudo isto sem ter havido ainda a pré-inscrição para o TdG, o que aconteceu depois.

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Muita água passou debaixo das pontes até ter conseguido uma inscrição para o TdG. Apenas soube que iria de facto, na 3ª etapa do PGTA.

 O dia 25 de Junho chegou e vários Portugueses partem para Cortina d’Ampezzo, local de start/finisher do LUT.

A viagem embora longa (em tempo) correu bem, 12 horas estava-mos em Veneza. Um passeiozinho pela cidade, uma corridinha para descontracção, uma entrada no rio (água gelada) da Ester e da Goreti e a tarde foi-se.

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Dia 26, conferência do material obrigatório (com cerca de 2 horas na fila) e levantamento do dorsal. Almoço, seguido de um repouso absoluto para quem iria fazer os 119 km…

19h “pasta party” havendo ainda cerca de 3 horas para “deambular”… Equipo-me convenientemente para a noite. (camisola térmica, t’sherty, calções, calças térmicas Buff , etc.

 23 horas começou o meu “calvário, o stress, a vontade louca de ficar ali mesmo.

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5 minutos antes do tiro (sem tiro) de partida, seleccionei a actividade no GPS, coloquei-o à procura do Satélite e alguns segundos depois deu informação de start. Mediante esta informação, tudo calmo, tudo ok. Segue a contagem decrescente e quando chega a zero vou fazer start no relógio, reparei que tinha desaparecido a indicação anterior de start e estava com uma mensagem esquisita que não consegui ler. Não obedecia a qualquer comando. Mesmo assim continuei à espera que "um milagre" acontecesse.... Nada.

Quando estava a chegar ao fim do asfalto para entrar na montanha, parei e disse para os meus “botões”: Se não conseguir pôr o GPS a funcionar, não continuarei. Não sentia confiança para fazer 119 km’s sem qualquer meio auxiliar. Não tinha GPS, não tinha relógio, sentia-me desolado, "despido.

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Ao fim de cerca de 10 minutos de estar parado à entrada da Montanha, consigo fazer um reset total. Liguei-o seguidamente na altura em que os “vassouras” chegaram à minha beira e me perguntaram se eu ficava ali. Já na posse da minha autoconfiança total, disse-lhes que eram doidos se pensavam que iria ficar ali. Mais um minuto e GPS já a funcionar. Começou ali o meu treino.

Digo treino, porque o objectivo do LUT era apenas e só fazer um treino controlado com altitudes e trilhos idênticos ao TdG.

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O meu objectivo era passar todas as barreiras horárias dentro dos tempos que a organização tinha imposto, e ser finisher.

Passados mais cerca de 10 minutos, comecei a passar imensos Atletas. E foi sempre a ultrapassar (sem ser ultrapassado) até aos 18 km,’ local do 1º abastecimento. Estava cheio! 

Parei o tempo suficiente para colocar dentro de um dos bidões um pacotinho de isotónico da Herbalife, encher de água e seguir. Claro que continuei a passar Atletas e raramente era ultrapassado.

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Chegado ao abastecimento seguinte aos 33 k’ms. O tempo de barragem aqui seria às 5h30. Cheguei eram 4h. Bebi apenas uma sopinha, enchi de novo agora o outro bidão com água e o isotónico da Herbalife e segui.

Nos dois abastecimentos, gastei apenas 5 minutos. Apesar da enorme “parede” até ao lago Misurina, não houve qualquer dificuldade. A dificuldade surgiu depois mais à frente, na outra “parede” que nos levou até ao km 49, Ref. Auronzo. 

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Contrariamente às vezes que andei bastante mais lá por cima em altitude, senti que neste trilho duríssimo estava a ter algum problema com a altitude. Mais tarde cheguei à conclusão que não era a altitude mas sim o excesso de roupa aliado ao calor que já se fazia sentir.

Cheguei finalmente lá acima às 07h45, sendo a hora de corte às 10h30. Estava confortável em tempos, mas cheio de calor. A 1ª coisa que fiz, foi retirar a roupa toda, ficando apenas em t’shirty da D+ e calções.

Entrei na fila que havia para o abastecimento, bebi apenas e só mais uma sopinha, enchi de novo outro bidão com isotónico e arranco. Perco aqui 25 minutos!

3cumes lado Sul
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Sigo e parei várias vezes ao longo de todo o percurso para tirar fotos… mas aqui tirei mais pois estava a passar junto aos 3 cumes. Continuei sempre a ritmo de treino “modo Geants”, percorrendo as montanhas sem qualquer dificuldade, mas tendo sempre em conta os tempos de barragem, até ao km 85.

Aqui começo a “sentir” umas gotas de água… Olho para o céu e vejo aproximar-se uma nuvem preta. Ia-mos um grupo de 7 Atletas e claro paramos todos para vestir o impermeável. 

3cumes lado Norte
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Quando chego ao Ref. de Malga Travenanzes (km88), este encontrava-se a abarrotar com pessoal a abrigar-se da chuva. Como não havia caldinho, enchi um bidão e sigo para não arrefecer… à medida que ia subindo, de chuva passou a granizo acompanhado de efeitos sonoros e luminosos!!!

O granizo nas mãos acompanhado também de ventos fortes vindos de trás, legou as mãos ficarem geladas. Parei um pouco à frente para calçar as luvas, mas não as encontrei. Eu tenho uma particularidade, tendo as mãos e os pés gelados tenho a sensação de todo o corpo gelado. Os pés felizmente estavam quentes.

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Continuo a subir e o frio a aumentar, começando mesmo a estar preocupado. Sabia que mais uns 3 a 4 km’s teria um abastecimento e como estava com muita força, locais em que normalmente não corro, fi-lo nessa altura para poder desenvolver calor…

Quase a chegar ao cimo, encontro uma tenda de vigilantes da montanha. Entrei lá e tudo o que tinha tirado ao km 49, vesti novamente. Mesmo chovendo ainda muito e a trovoada presente, sigo viagem. Reparo um pouco mais à frente que a trovoada estava a abandonar aquela montanha. Dali para a frente, tudo a correr a 100%, nada de cansaço, nada de frio, nada de nada. Sempre com vontade de correr onde era possível. E assim continuou até cerca do km 100. 

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Aqui encontro uma Atleta Japonesa dobrada em seus bastões com vómitos terríveis. A única coisa que fiz foi segurar-lhe na cabeça para tentar que se sentisse um pouco mais confortável. Recuperou, pediu-me que seguisse mas eu não a deixei. Ia apenas um metro à frente dela porque notava que vinha com muita dificuldade. Apesar de todo o meu cuidado, cerca de 100 m à frente, dá uma queda muito violenta (Quem por aqui passou sabe que os cerca de 800m antes de Passo Giau, são muito técnicos e muito difíceis. Há socalcos em pedra com mais de um metro de altura).

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Imediatamente mesmo sem saber a gravidade da lesão, rodo-a 180 graus colocando-a de barriga para cima. Faço-lhe um exame primário e vejo que apesar de estar com a parte um pouco abaixo do joelho exposta e uma mão a sangrar abundantemente, não tinha nada partido. Nesse sentido, sentei-a numa pedra e pedi a dois Italianos que passavam alguns minutos depois para pedirem socorro no abastecimento que já se avistava.

Esperamos ali cerca de 20 minutos e nada de socorro. De noite sem o Helio poder voar, no meio daqueles pedregulhos todos, não era muito viável o socorro. Chorava a altos berros! Tentei estancar a hemorragia da mão, tentei acalmá-la, estava quase a entrar em estado de choque.

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 Decidi então com a sua anuência “arrastá-la” até Passo Giau. Foram cerca de 800 metros que nos levou cerca de uma hora. Ela vinha pendurada no meu pescoço e em certos socalcos tive que a descer ao colo. Chegamos finalmente às escadas de acesso ao abastecimento, tendo passado por dois socorristas em sentido contrário que nem pararam. Soube depois que iam à procura da sinistrada… Bem poderia ter morrido, porque o socorro saiu cerca de uma hora depois de ter sido pedido aos Atletas que passaram.

Deixei-a entregue aos cuidados médicos, bebi o último caldinho e lá vou eu até ao último abastecimento.

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Aqui parei apenas (porque ainda tinha os dois bidões quase atestados) para mudar as pilhas do frontal. Sabia que faltavam 9 km’s para o final e sabia também que cerca de 4 km’s pertenciam a uma descida muito inclinada e perigosa devido à chuva que tinha caído, desci com todo o cuidado, sendo ultrapassado nessa descida por 10 ou 15 Atletas….

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Logo que cheguei ao estradão, passei vários que antes me tinham passado. Cheguei finalmente ao asfalto, tendo a agradável surpresa de ter o Fredy à minha espera. Durante aquele km e tal que faltava para chegar à meta, foi aplicado um tal ritmo de corrida, que obriguei o Fredy a ir tomar novo banho porque tinha a camisola toda molhado…

Ao fim de 27h16 cheguei à meta, terminando um excelente treino em “modo Geant”, que também este me deu ainda mais confiança para ser Finisher em Setembro próximo nos Alpes mais a Nw com col’s com mais de 3.000 metros e 24.000 de D+…
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Há, falta dizer que para não fugir à regra, desta vez caí 3 vezes… E dizer também que durante todo o percurso, apenas bebi 3 caldos dos 4 que havia. O restante foram barras de proteínas da Herbalife e isotónico desta mesma marca, tendo também comido uma “barrinha” de fabrico caseiro que o nosso amigo Venezuelano Moises Jimenez me ofereceu com a indicação de ser ingerido por volta dos 80 km.

Comi-a por volta dos 96 km’s, dando-me na verdadeira acepção da palavra, asas para “voar” até à ultima descida….


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Quim Sampaio

1 comentário:

  1. Muito bom ... é "monstruoso" a facilidade com que fez esta prova ... muitos parabéns. Este ano a TdG não lhe escapa.
    Abraço

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